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  • Foto do escritorDavi Simões

O Brasil já perdeu muito antes das eleições

O discurso fascista já está normalizado.

Já “tá podendo” zombar da deputada negra e lésbica que foi exterminada num crime político; já “tá podendo” agredir esquerdista; já “tá podendo” ser homofóbico com orgulho; já “tá podendo” elogiar ditadura e torturador e desprezar os Direitos Humanos.

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Já conseguiram incutir no senso comum do brasileiro que é mimimi alertar a população sobre as estatísticas assustadoras de crimes motivados por ódio contra homossexuais e transexuais no Brasil; que é coisa de “defensor de bandido” falar sobre a violência policial e ações de extermínio contra negros, pobres e moradores de favelas; que movimentos de populações mais pobres (como os sem teto, sem terra e outros) são terroristas; que o povo indígena é um povo atrasado no processo civilizatório e que precisa se adaptar ao nosso sistema econômico ou aceitar sua extinção; que defender políticas ambientais, reforma agrária, demarcação de terras indígenas, diminuição de desigualdades sociais e outras pautas populares é “ameaça comunista”.

Já é refrão para nós dizer “não sou de esquerda” antes de defender ideias progressistas, pautas igualitárias, causas sociais e ambientais; porque se instaurou o medo de ser visto como esquerdista – afinal, para uma população com a cabeça na extrema direita, qualquer ideia divergente está à esquerda e é fonte de medo e causa de todos os problemas.

Ainda que Bolsonaro perca (e façamos de tudo pra que ele perca enquanto é tempo), o caminho a percorrer já está mais longo, mais cheio de pedras e mais cercado de espinhos.

O fato de quase metade da população estar disposta a ignorar – por qualquer razão que seja – o teor fascista, desdém pelos Direitos Humanos e os discursos de ódio de um candidato, já indica que o Brasil vem perdendo desde muito antes das eleições, independente de quem seja o próximo presidente e qual seja a próxima formação do congresso (e ainda é tempo: para deputados e senadores, vote em mulheres, negros, homossexuais, transexuais, indígenas; precisamos com urgência dessa representatividade).

O sofrimento agora intensificado infelizmente não é novidade para aqueles que já são alvos desde sempre das barbáries justificadas por estes discursos.

É tentador desanimarmos ou nos perdermos no mar de ansiedade. Mas não podemos cair nessa tentação ou mergulhar em desesperança.

A vida é isso. É conflito, é trabalho, é avanço e revés, é lutar por soluções e enfrentar problemas inesperados.

Viver a repetição da história sob aplausos de multidões é extremamente frustrante, mas é importante ter em mente que não estamos condenados a assistir como expectadores passivos. Nós temos em mãos o poder de lutar com toda a força, inteligência e coragem necessárias.

Os intolerantes encontraram o calcanhar de Aquiles da tolerância: nos fazer sentir culpados por coibir o discurso de intolerância – como se fosse possível que intolerantes convivessem pacificamente com uma sociedade tolerante.

Com essa estratégia, conseguiram sorrateiramente reinstaurar a política de bodes expiatórios, do medo e ódio a minorias, de perseguição legitimizada de parcelas da população, de defesa ideológica de práticas desumanas permitida através da deturpação dos ideais de liberdade de expressão.

Conseguiram assim restabelecer a intolerância como norma, e amordaçar a tolerância apelando para seu senso de paz; espalharam a retórica de que discursos intolerantes não motivam nem justificam ações intolerantes; venderam à população a ideia de que discursos de ódio são apenas palavras ao vento, e que ações de ódio não são frutos deste discurso.

Aprendemos aos poucos a tentar conviver pacificamente com a intolerância, como se fossem apenas ideias diferentes cujos portadores também merecem respeito – e ignoramos que a intolerância é exatamente a doença que mata todo respeito e convivência pacífica em uma sociedade.

Que aprendamos urgentemente com esse momento tenebroso do nosso país que a tolerância não pode ceder à intolerância como se essa fosse apenas mais uma ideia.

Relevar o comentário racista do taxista pra evitar dor de cabeça não é inofensivo. Fingir rir da piada homofóbica na roda de amigos pra evitar um climão de constrangimento não é inofensivo. Fugir de discutir política pra não brigar com a família não é inofensivo. Ignorar as visões intolerantes do amigo por medo de perder a amizade não é inofensivo.

Se continuarmos permitindo que o discurso de ódio, preconceito e medo se torne o “normal” em rodas de amigos, grupos de whatsapp, mesas de bar, postagens no facebook e tantos outros meios, fortaleceremos cada vez mais o senso coletivo de que é socialmente impróprio fazer o contraditório a estes pontos com a mesma descontração e naturalidade, que é “coisa de gente radical”; e assim ajudaremos a normalizar o discurso da intolerância.

Não é sua responsabilidade mudar a mentalidade das pessoas em questão – e em muitos casos isso pode ser impossível. A questão é que, com nossas ações e inações, palavras e silêncios, estamos criando e modificando cultura.

Omissão custa caro. E a paz não é gratuita.

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