• Davi Simões

Sobre o Impeachment de Dilma Rousseff

Um comentário que eu muito sinceramente espero ser meu último sobre isso, ao menos de forma solta e superficial. Daqui pra frente, só quero falar disso quando puder fazer uma coleta boa de informações.

Em momento nenhum defendi “a Dilma”. Vocês estão ensinando o padre a rezar missa quando me falam da má administração dela.

Defendi o respeito ao processo eleitoral desde que, no fim das eleições, os eleitores do Aécio se apossaram dos protestos (e da histeria brasileira) pra pedir sua deposição. Não é uma coisa vaga e difícil de enxergar, e não estou inventando esse fato só agora. Eu fiz até um vídeo na época falando do assunto. Isso estava claro pra todos, quando saíram às ruas de mãos dadas os eleitores vencidos, os que queriam intervenção militar e a turma do orgulho hétero. O título do vídeo é “O País da Pirraça”, caso queiram conferir por si mesmos.

Comecei a me preocupar de fato quando essas manifestações começaram a receber cobertura em horário nobre, passe livre, almoço grátis e boa recepção dos militares. Não estou dizendo que haverá um golpe militar, e sim que líderes militares também são líderes políticos com contatos políticos e empresariais, e o fato de que militares aplaudem uma manifestação e recebem a outra a balas é no mínimo um indicador de que há um viés. Chamar isso de coincidência ou falar que a manifestação amarela era a única pacífica entre todas é irracional, e em geral fruto de um preconceito cego em relação à esquerda, que tem crescido perigosamente no Brasil.

Comecei a me preocupar naquele momento porque ficou evidente, acima de tudo, o apoio das redes Globo e Record exclusivamente às manifestações do impeachment. Nós amamos a internet mas as mídias de massa ainda tem um poder bizarro de influência no Brasil. Talvez nas próximas gerações isso diminua, mas ainda é assim. E essas são as maiores redes de televisão no Brasil, que pertencem a um grupo de famílias que são parte de uma classe social “ultra-exclusiva”, que detém também bancos, conglomerados, indústrias, etc.. Um mínimo estudo de capitanias hereditárias, somado a uma busca por quem são os grupos donos das grandes empresas no Brasil, é suficiente pra entender um pouco esse pequeno grupo.

Vi e chorei ao saber de professores que foram recebidos com violência em diversas manifestações pelo país, sendo noticiados como notas de rodapé por essas mesmas redes. Na internet a gente vê essas manchetes e acha que é tudo cisma, mas lembrem-se que a TV ainda é a maior formadora de opinião por aqui. Manchete em blog todo mundo faz, até eu to fazendo. Colocar o Wiliam Boner pra falar da insatisfação de toda a população brasileira tem um peso completamente distinto. Basta ver que a separação do casal JN virou top trend e tomou conta do Brasil por conta de um tuíte. Um vídeo da internet com dez milhões de acessos não faz cócegas em um discurso de um global em horário nobre.

Não estou falando de “elites” sem nome. Todos os candidatos tem eleitores pobres e eleitores ricos. Estou falando de um grupo muito específico de mídias de massa que sempre tiveram um poder de influência muito grande na opinião pública, e também na política brasileira, que há muitas eleições usa de manchetes e edições de última hora pra tentar manipular o resultado. O mesmo grupo que ajudou a orquestrar o golpe de 1964, e hoje temos os registros históricos provando isso. Se afirmasse isso à época, talvez fosse chamado de conspiracionista.

Mas até aí, tanto faz. O PT também tem aliados de sobra e também joga esse jogo (não é à toa que conseguiu vencer 4 eleições seguidas). Em muitos casos, essa turma anda de mãos dadas. Só quem se dá mal nessa história são os partidos menores e “terceiros” candidatos – como Marina Silva, que foi completamente derrubada na última eleição, em uma semana, através de memes sobre falta de compromisso, por conta de uma vírgula mudada em propostas de campanha.

A política brasileira já começa suja nas eleições, e já temos um número gigantesco de estudos apontando que o comportamento de manada é um efeito psicológico real, com capacidade de afetar o maior dos intelectuais. Sim amigos, eu e vocês não somos separados desse “povo” sem cabeça e sem nome, seja você pró-Dilma, pró-Aécio, pró-impeachment ou contra o impeachment.

É muito complicado também explicar o poder da influência política quando as pessoas não percebem a diferença entre declive escorregadio e uma sequência muito clara e gradual de eventos que leva a acontecimentos políticos. Se em 1963 alguém afirmasse “nossa ida às ruas tá criando um clima perigoso, as mídias e grandes empresários tão insatisfeitos e conspirando pra derrubar o presidente, ano que vem o congresso vai dar o governo na mão dos militares, que tão sendo apoiados pelos Estados Unidos, e esse regime militar vai se tornar um regime autoritário, cruel e desumano e ainda vai durar por décadas”, certamente que nós, já treinados em gritar “falácia!” diríamos que é um declive escorregadio.

Mas não foi. Tudo isso é hoje bem sabido e documentado detalhadamente.

No mundo real as coisas absurdas não acontecem do dia pra noite. Assim como os celulares não são uma coisa surpreendente, porque mesmo a ágil tecnologia chega de forma gradual, da mesma forma todo o resto. É por isso que coisas como estabilidade política e segurança jurídica são essenciais, porque são atos aparentemente pontuais e sem importância histórica que abrem as portas pro que vem a seguir.

Não me importaria que a Dilma fosse deposta por um processo devido. Mas esse processo dela NÃO FOI LEGÍTIMO. Atenção: não estou dizendo que não haviam razões para sua deposição. Não estou dizendo que a população não tem o direito de depor um presidente por insatisfação.

Estou dizendo que esse processo foi visivelmente arquitetado. Todos já sabiam o resultado de todas as votações antes mesmo de a primeira delas começar, porque todos os votos foram previamente comprados com lobby ou determinados por filiação partidária. Bastava pesquisar no Google “votos impeachment” e já estava declarada a maioria dos votos.

Não houve julgamento. Não consigo entender como é tão difícil de notar a ilegitimidade das votações na câmara dos deputados. Imagine um réu que está sendo julgado por roubar um banco ser condenado porque torce pro Flamengo e é ateu. O objeto do julgamento importa. Afirmar “é um criminoso, tanto faz o jeito que vai preso” é atropelar a segurança jurídica e o devido processo penal, é abalar a segurança que deveria ser fornecida a todos os cidadãos pelo Direito.

É basicamente isso que vimos acontecer. E meu argumento, desde o começo, é que o processo eleitoral deveria ser respeitado (informação: não votei Dilma em nenhuma eleição, em nenhum dos turnos). A queda da Dilma não é a retirada de uma presidente que cometeu irresponsabilidade fiscal, é a “derrubada dos comunistas!”, ou a “queda do PT!” ou a “retirada dos vermelhos!”. Vimos essas justificativas nos julgamentos, além dos votos em nome de Deus, da família tradicional, e outros que jamais deveriam estar misturados ao Estado.

Tente se lembrar de quantos dos votos foram justificados citando o objeto do julgamento – as pedaladas fiscais. Cite aqui quinze nomes, dos mais de quinhentos que votaram, que em seus discursos falaram disso. Se conseguir, te dou os parabéns, mas te lembro que todos os quinhentos e tantos deveriam ter apreciado isso, e não a ideologia ou prioridades governamentais da presidente. Se foi eleita como representante, é porque uma parcela considerável da população concorda com suas ideias e prioridades, goste você ou não. Pluralidade de ideias é isso, democracia é isso.

O que temos agora, independente do quão justo você considere esse resultado, é uma democracia fragilizada. Temos 50% da população com o sentimento de que as eleições não significam nada. E eles estão certos! Não se assuste com as depredações que começaram a acontecer, isso é o resultado psicológico natural do sentimento de injustiça social. Não estou dizendo que apoio vandalismos ou manifestações violentas, muito pelo contrário. Mas “o povo” não é um ser racional, em especial quando seus direitos mais básicos – como o sufrágio universal – são violados de forma tão evidente. E todo esse processo, desde o início das manifestações, somado ao apoio das grandes mídias e grupos de empresários, foi um atropelamento do processo eleitoral e democrático.

Funcionou. Não faço ideia do que vem pela frente. Vale a pena tentar retirar o Temer, visto que o circo inteiro já foi montado? O povo vai às ruas? O lucro dos bancos e grandes empresas vai voltar a ser prioridade sobre o bem estar social? Não sei (tirando a última parte, que é bastante óbvia pelo rumo dos acontecimentos).

Provavelmente virão novamente falar comigo do declive escorregadio e que não é uma catástrofe o que aconteceu.

Talvez não seja, meu amigo. Torço pra que não seja. Diferente do que vejo em todos os cantos, eu quero o bem do meu país. E minha indignação é porque uma democracia fragilizada e uma tomada política arquitetada, em qualquer canto do mundo, nunca deu frutos positivos.

Tenho um amigo africano, de Guiné Bissau, que quando estudou comigo me dizia que admirava a democracia brasileira, porque no país dele nos últimos quinze anos todos os presidentes haviam sido mortos ou depostos, e essa insegurança democrática recaía sobre a população. Índices altíssimos de pobreza, fome, desemprego e desigualdade social – essa última principalmente. Uma pequena elite morando em palácios, e o restante da população sem ter sequer energia elétrica. Ele voltou pra lá e hoje só nos falamos nas raras vezes em que ele tem acesso a um telefone ou internet – e sempre com um espírito de leão que eu admiro e gostaria muito de ter também, ainda mais agora.

Nossa situação não é tão trágica, e o fardo histórico sobre o país dele é muito, muito maior. A luta pela democracia, por lá, infelizmente ainda significa muito mais que bater panelas diante da TV.

Mas tragédias nunca chegam de repente. E uma democracia frágil nunca é um bom sinal.

Celebrar a queda de um presidente com fogos de artifício é como comemorar a morte do piloto do avião em que estamos. Não há motivo de alegria, mesmo pra quem concorda com a queda. Mesmo que essa queda fosse justa.

Nesse caso, não foi.

Torço pra que o Brasil se recupere dessa queda e que eu esteja errado a respeito daqueles que clamavam contra a corrupção há algum tempo. Que as panelas voltem a ser batidas e que as manifestações amarelas voltem às ruas pra clamar a volta do ficha limpa (que já está sendo derrubado), o prosseguimento da lava-jato, reclamar do corpo de ministérios composto por corruptos públicos e, desculpem-me por apontar o óbvio que tanto irrita hoje em dia: apenas por homens brancos.

Honestamente, duvido que isso vá acontecer. Mas torço pra que minha língua seja queimada.

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Gabinete ministerial do Primeiro-Ministro canadense, 2015


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Ministros do Governo Temer, 2016


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